Uma estrada na serra, um rapto e um morto sentado na
poltrona. É assim que começa este clássico. A narrativa desenrola-se através de
cartas escritas anonimamente pelos envolvidos para uma publicação periódica e
assim se vai desvendando o mistério.
Tendo em mente que se trata de um livro escrito em 1870, pereve-se que a
linguagem é muito específica da burguesia da época retratando as dinâmicas
sociais desse período. Foi o primeiro romance policial publicado em Portugal, a
razão que me fez pegar neste livro.
Custou-me a ler especialmente pelas descrições exaustivas
tão características do autor e de uma certa obsessão com as características físicas
e emocionais das damas envolvidas no enredo. É irritante como a mulher da época
era vista pelo sexo oposto como algo puramente decorativo, queriam-se burras,
pálidas como pétalas de rosa branca ao orvalho, desocupadas e com tempo livre
para se encantarem, terem chiliques e morrerem de amores pelo primeiro
cavalheiro que lhes prestava atenção. Um retrato de época que não me encanta.
Senti-me a moer uma bola de bacalhau seco aninhado na bochecha,
cheguei ao fim, por casmurrice, mas consegui. É difícil para mim ler um livro
em que não me identifico com nada do que por lá se passa, com uma escrita
excessivamente descritiva e romantizada, cheia de dogmas e preconceitos.
Acredito que na época poderia preencher as medidas dos
leitores, haveria sintonia com o cenário social descrito, os sentimentos, os
protocolos, os interesses, sentiriam uma verossimilhança com as suas próprias
vidas. Para mim, nos dias de hoje a léguas de distância dessa realidade percebo
que não é a minha praia.


















