quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O Pintor de Almas - Ildefonso Falcones

 



Mais uma obra brilhante do autor. Desta vez viajamos a Barcelona, no despontar do séc. XX. Um livro de opostos que contrasta a miséria dos operários com a opulência da burguesia; a luta das classes trabalhadoras por melhores condições contra a prepotência dos ricos, a arrogância de um clero ligado ao governo que apenas privilegia os privilegiados e os gritos de um povo cansado de ser explorado.

Entre os bairros escuros, insalubres da velha Barcelona e as novas avenidas onde renomados pintores, ceramistas e arquitetos trabalham para satisfazer os caprichos burgueses, um pintor está dividido entre estes dois mundos. Por um lado a sua família pobre, activista, chamados anarquistas; por outro o deslumbramento pela arte que existia no lado dos burgueses que inspirava a sua própria sensibilidade artística. É este pintor que vamos acompanhar ao longo deste romance histórico, os seus altos e baixos, o viver entre extremos opostos e continuar a desenvolver a sua arte, ou não.

“Eles até compraram o Sol!”- Diziam. Referindo-se ao lado da cidade amplo e solarengo dos ricos e onde não lhes era permitido entrar. A luta de classes, instituições políticas e religiosas ao serviço da burguesia, a sujeição das mulheres a assédios e abusos para conseguirem dar de comer aos seus filhos, o ínfimo valor atribuído à vida dos operários. Tudo isto num só livro que me fez reflectir na questão: “O que mudou?”. Naturalmente que vivemos uma oitava acima, mas tudo o que é descrito neste livro ainda existe.

Lembro-me de ser voluntária com os sem-abrigo, distribuir jantares, muitas vezes a única refeição que tinham e sermos expulsos do átrio de uma igreja por um membro do clero, porque eles sujavam o chão; de não ter acesso ao banco alimentar por não pertencer a uma instituição católica, nem a uma IPSS. Um desses sem-abrigo um dia disse-me “Deve ser porque não vamos à missa, mas se quisermos ir também nos expulsam porque cheiramos mal”. Pergunto, qual a diferença entre esta afirmação e ““Eles até compraram o Sol!”

Fica a reflexão e a recomendação deste livro.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O Amor não cresce nas árvores – Pedro Chagas Freitas

 


Uma excelente sátira social que retrata a inversão de valores morais e prioridades da sociedade actual. O “deus dinheiro” no comando, versus a “oposição” com bases no amor e na humanidade, num momento de decadência.

Um livro muito original composto por cinco histórias que no início parecem independentes mas aos poucos vão-se criando ligações: Uma grande história de amor. O diário de uma adolescente; Uma intriga política; Uma sátira inesperada; Um delírio mediático. Pode-se ler normalmente da primeira página até à última (como fiz) ou ler por cores pois cada história tem uma cor atribuída (como ainda pretendo fazer).

Encontramos personagens marcantes como a dona Aurora, administradora do condomínio que passa a mão no sovaco e a leva ao nariz, sem pudor, para avaliar o grau de insalubridade do seu odor corporal. Todos são alguma coisa e o seu oposto em simultâneo, vamos mudando de opinião sobre cada um ao longo da narrativa. Muito bem construídos. Também há o absurdo, impossível que se torna lógico e explicável dentro da construção da narrativa entrando no campo da distopia.

De uma forma subtil e caricatural leva-nos a reflectir sobre os nossos próprios valores e prioridades. Um livro que adorei e recomendo.

A Última Carta – Carlos Miguel Ferreira

  Agora sim, estamos lá! Este livro foi para mim “O salto do gato” do Carlos como autor. Já tinha notado alguma evolução ao longo do livro a...